Quando pensamos na Universidade de Oxford, imaginamos imediatamente edifícios góticos cobertos de hera, estudantes de capa preta e uma atmosfera solene digna de um filme de época. Mas por trás desta fachada de postal esconde-se uma história milenar feita de rivalidades geopolíticas, pancadaria em tabernas e tradições estudantis totalmente loucas. Bem-vindo aos bastidores da universidade mais antiga do mundo anglófono.
O dia em que a França fez a fortuna de Oxford
Para compreender como Oxford se tornou nesta potência intelectual, é preciso recuar quase mil anos. Embora existam vestígios de ensino já em 1096, a universidade estava longe de ter a aura que tem hoje. O seu verdadeiro empurrão deve-se, na realidade, a uma grande disputa diplomática com a França.
Em 1167, o rei Henrique II decidiu proibir os estudantes ingleses de frequentar a Universidade de Paris. Privados da Sorbonne, os cérebros britânicos não tiveram outra escolha senão refugiar-se em massa na pequena cidade de Oxford. A rede académica consolidou-se de repente, pondo definitivamente a máquina a funcionar.
Mas a convivência entre estes novos estudantes e os habitantes locais não foi propriamente pacífica. Em 1209, as tensões explodiram e transformaram-se numa crise aberta. Apavorados com a violência dos confrontos com os habitantes de Oxford, vários professores e alunos decidiram deixar tudo para trás. Fugiram mais para leste para se refugiar num canto tranquilo e ali fundaram uma instituição completamente nova: a Universidade de Cambridge. Sem este choque histórico, a rivalidade universitária mais famosa do mundo nunca teria visto a luz do dia!
Um quebra-cabeças de 43 “colleges” (e números vertiginosos)
Outra particularidade que costuma surpreender os visitantes é que é impossível encontrar um “campus” principal em Oxford. A universidade não é um bloco único, mas sim um mosaico gigante de 43 colégios autónomos espalhados pelas ruas históricas da cidade. O mais antigo deles, o University College, abriu as portas em 1249. Cada estudante pertence, antes de mais, ao seu próprio colégio — como Balliol ou Christ Church —, que gere as suas aulas particulares (as famosas tutorias), o seu alojamento e, acima de tudo, a sua vida social.
E quando olhamos para os números, percebemos rapidamente por que razão o lugar fascina os amantes de quizzes. A sua lendária biblioteca, a Bodleian Library, alberga mais de 11 milhões de volumes, o que a torna a segunda maior do Reino Unido, logo a seguir à British Library de Londres. É também uma verdadeira fábrica de génios, já que a instituição está diretamente ligada a 76 prémios Nobel, 4 medalhas Fields e 6 prémios Turing. No plano político, o domínio é ainda mais evidente: nada menos do que 31 primeiros-ministros britânicos passaram pelos bancos de Oxford antes de governarem o país.
Champanhe, farinha e latim: O folclore oxoniano
Mas não pensem que a vida dos 20.000 estudantes se resume a ler manuscritos antigos numa atmosfera austera. Oxford possui um folclore único onde a seriedade mais estrita convive com a festa mais desmadrada.
O exemplo mais flagrante é, sem dúvida, a tradição do “trashing”. No segundo em que saem do seu último exame do ano, os estudantes são literalmente emboscados na rua pelos seus amigos, apesar de ainda estarem a usar o subfusc, o uniforme tradicional ultra-formal. O comité de boas-vindas espera por eles com projéteis improváveis como farina, confetis, espuma de barbear e garrafas de champanhe baratas. O resultado são dezenas de estudantes em fato de gala, encharcados e cobertos de comida em pleno centro da cidade.
Algumas horas mais tarde, a calma regressa para as Formal Nights. Jantares oficiais organizados nos grandes salões dos colégios, onde os estudantes voltam a vestir-se de forma impecável para ouvir discursos solenes proferidos em latim antes da refeição. É este contraste permanente entre a excelência académica e um espírito de camaradagem um pouco rebelde que faz de Oxford muito mais do que uma simples universidade: um verdadeiro monumento vivo que atravessa os séculos sem envelhecer um único dia.