Num mundo onde a diversidade cultural é muitas vezes sinónimo de dor de cabeça administrativa, a União Europeia tomou uma decisão forte: apostar na riqueza linguística. Este verdadeiro cruzamento de culturas reconhece hoje um número impressionante de idiomas, permitindo a milhões de cidadãos comunicar, informar-se e participar na vida política europeia tanpa perder a sua própria identidade.
Hoje em dia, o mosaico linguístico da UE conta precisamente com 24 línguas oficiais. Este número, que cresceu ao ritmo dos sucessivos alargamentos, demonstra um compromisso único com o multilinguismo. Mais do que uma simples ferramenta de comunicação, esta pluralidade reflete a vontade de fazer da diversidade um motor de unidade, ainda que levante questões práticas fascinantes. Como se gere um dicionário deste tamanho no dia a dia? Porque é que o inglês permaneceu após o Brexit? Uma viagem aos bastidores da diplomacia das palavras.
De 4 a 24: a louca expansão do mosaico europeu
No início, em 1957, a Europa era muito mais íntima e falava apenas em quatro línguas: francês, alemão, italiano e neerlandês. Estas quatro línguas correspondiam simplesmente aos países fundadores do Mercado Comum. Mas ao longo das décadas, cada vez que um novo Estado se juntava à aventura, trazia o seu idioma nas malas. A integração da Bulgária e da Roménia em 2007 fez entrar assim o búlgaro e o romeno no círculo oficial, seguidos de perto pelo croata em 2013.
No entanto, a escolha de uma língua oficial responde a regras estritas. Em princípio, cada país membro designa apenas uma língua principal para o representar a nível europeu, mesmo que possua várias no seu próprio território. É por isso que o luxemburguês, apesar de ser língua nacional no Grão-Ducado, não faz parte das 24 línguas da UE. Da mesma forma, o turco, que tem estatuto oficial em Chipre, não é reconhecido à escala europeia.
Um dos casos mais irónicos continua a ser o do inglês. Apesar da saída estrondosa do Reino Unido em 2020, a língua de Shakespeare conservou o seu estatuto de língua oficial da UE. Porquê? Simplesmente porque a Irlanda e Malta também a tinham notificado como língua oficial no momento da sua adesão. Uma escolha pragmática que evita paralisar as instituições, já que o inglês continua a ser a principal língua vehicular das negociações.
Os bastidores da tradução: um desafio industrial
Fazer funcionar uma democracia em 24 línguas é um desafio colossal. Para que cada tratado, cada diretiva e cada debate seja acessível a todos, a Comissão, o Parlamento e o Conselho da UE implantam uma logística exemplar, única no mundo. O princípio básico é a igualdade absoluta: nenhuma língua prima sobre outra. Um cidadão polaco pode escrever à Comissão em polaco e receberá obrigatoriamente uma resposta no seu idioma.
Para orquestrar este milagre quotidiano, as instituições recorrem a uma autêntica armada na sombra composta por mais de 3000 intérpretes e tradutores profissionais. Cada mês traduzem-se mais de dois milhões de páginas. Durante as sessões do Parlamento Europeu em Estrasburgo, os deputados têm o direito de se expressar na sua língua materna. Os seus discursos são traduzidos instantaneamente em direto. Embora o inglês, o francês e o alemão continuem a ser as línguas de trabalho mais comuns nos corredores de Bruxelas, a tradução escrita abrange hoje todos os suportes, desde os sites oficiais até aos simples comunicados de imprensa.
Um dia para celebrar o multilinguismo
Para valorizar este património único e incentivar os cidadãos a abrirem-se aos outros, a União Europeia organiza todos os anos o Dia Europeu das Línguas a 26 de setembro. Este evento, que mobiliza escolas, universidades e atores culturais em toda a Europa, é a oportunidade perfeita para se iniciar na diversidade.
Por todo o continente, oficinas de descoberta permitem testar a pronúncia de palavras-chave em idiomas por vezes desconhecidos, enquanto concursos de tradução e conferências analisam a evolução do multilinguismo. Apoiada pelos diferentes ministérios da Educação, esta jornada recorda a filosofia profunda da Europa: uma unidade construída na diversidade, onde cada língua é uma ponte lançada para o vizinho.